Carnaval 2014 - Grupo de Acesso

Uma notícia nada boa para se dar.

Rebaixadas no Carnaval 2013 para a Federação dos Blocos do Rio de Janeiro, em conformidade com o que determina o estatudo da Associação das Escolas de Samba do Rio de Janeiro - AESCRJ, as Escolas  Vizinha Faladeira, Flor da Mina do Andaraí e Tradição Barreirense de Mesquita entraram na justiça e conseguiram, em junho de 2013, liminar que lhes concedia o direito a participar do sorteio que definiu a ordem dos desfiles de 2014. Só que até o momento a ação não foi julgada. Em decorrência disso, as entidades ficaram sem direito a receber parte da subvenção liberada pela Riotur.

O estatuto da Associação prevê que as duas primeiras colocadas sobem para o Grupo C e as três últimas descem para a Federações dos Blocos,

Moral da história: a Flor da Mina do Andaraí e a Vizinha Faladeira decidiram que não desfilarão no Carnaval 2014. Já a Tradição Barreirense de Mesquita desistiu da ação e anunciou que voltará a desfilará como bloco pela Federação.

Com essa desistência, o desfile do Grupo D, que acontece na terça-feira de Carnaval na Intendente Magalhães contará com 12 agremiações: Matriz de São João de Meriti, Unidos das Vargens, Gato de Bonsucesso, Unidos do Anil, Mocidade Independente de Inhaúma, Unidos de Cosmos, Lins Imperial, Arrastão de Cascadura, Acadêmicos de Vigário Geral, Corações Unidos do Amarelinho e Unidos de Manguinhos.

Que a situação das Escolas do Acesso em nada se compara com o quadro das Escolas do Grupo Especial e Série A, é público e notório. Se não fazem o carnaval espetáculo, são Escolas de raiz, representantes culturais de comunidades.

Chama a atenção o caso da Vizinha Faladeira.

Fundada em 1932, com origem na zona portuária do Rio, mais precisamente os bairros da Saúde, Santo Cristo, Morro do Pinto, Providência, a Vizinha Faladeira é  uma das escolas de samba mais antigas do Brasil. Foi a primeira escola de samba a apresentar comissão de frente nos desfiles e a utilizar enredos internacionais. Ficou 48 anos sem desfilar. A Vizinha, portanto, tem uma história que vai além dos desfiles de carnaval. Uma história que conta um pouco da história do carnaval carioca e também da própria cidade.

Quem conheceu meu trabalho em rádio, durante o carnaval, sabe que pelo menos há 10 anos venho falando da importância das Escolas de Acesso, sabe das críticas que fiz, inúmeras vezes, ao "Carandirú", área dos barracões dessas Escolas., sabe que venho pedindo há anos que se olhe com outros olhos para essas Escolas. Pela identidade que carregam. O glamour, a importância midiática, a sensação de espetáculo, que fique na Marquês de Sapucaí. Me refiro à importância cultural dessas entidades para suas comunidades.

Não é dar dinheiro, pura e simplesmente, para que coloquem carnaval bonito na rua, num único dia, em 60 minutos. É dar apoio, é dar incentivo, é dar treinamento, se preciso for, para que essas Escolas caminhem com as próprias pernas, que ocupem seu devido espaço como entidades culturais e, dessa forma, colaborem com o desenvolvimento dessas comunidades com base nessa identidade cultural.

A forma mais simples de explicar meu entendimento: temos aí as grandes empresas, sejam nacionais ou multinacionais; mas, também temos as pequenas e micro empresas, temos empreendedores individuais. Pessoas jurídicas igualmente geradoras de empregos, mesmo que em proporção diferente das gigantes empresariais. Cada uma no seu devido espaço, dentro das suas possíveis condições.

Escola de Samba não é casa de espetáculo. É raiz. Carnaval é cultura sim. E feito por diversas entidades culturais. É preciso, pois, mesmo pequenas, que essas Escolas sejam valorizadas, compreendidas como entidades culturais, e que tenham apoio para se firmarem ano após ano. Se tornarem Escolas do Grupo Especial, sonho de uma noite de verão. Pode acontecer, mas não se pode viver o tempo inteiro sob flores imaginárias. Então, que dentro de seus limites, sejam fortes. Perder ou ganhar desfile, é da competição. Cair ou subir, idem. Uma coisa é o concurso, o desfile. Outra é enrolar a bandeira - este sim, um fato grave.

Gostaria mesmo que as cabeças pensantes do carnaval se reunissem e traçassem plano para não apenas recuperação dessas Escolas do Acesso, mas para sua valorização, mesmo que continuem ocupando um pequeno espaço. O carnaval precisa ser um evento único com diversas alternativas. E todas fortes. Para que todos os investimentos, mesmo que não atinjam as cifras milionárias da Sapucaí. Se o problema é má gestão, que se prepare os gestores.

Vamos trabalhar para que o carnaval seja um produto único, com pico maior na Sapucaí, sim, porque o investimento é muito elevado. Mas, forte e organizado nos outros eventos. Isso é trabalhar pelo Rio, pela nossa cultura, pelo desenvolvimento. Porque o fortalecimento desses eventos gera empregos também. Gera renda. Carnaval é festa? Sim. Mas, para que alguém se divirta muito, alguém precisa trabalhar. Que seja um trabalho bem feito, pois.

Nada é fácil. Mas, é preciso ser feito. Para que as Escolas não enrolem suas bandeiras. Estaremos encerrando, assim, uma parte da nossa história cultural.


  

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