Lonas Culturais se unem para ações de solidariedade em meio à pandemia do novo coronavírus

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Apesar do atraso no repasse de verbas pela Secretaria Municipal de Cultura e sem respostas de um ofício enviado semana passada com pedidos emergenciais para o enfrentamento da crise provocada pela pandemia do novo coronavírus, quatro Lonas Culturais do município decidiram iniciar uma campanha de solidariedade às comunidades suburbanas localizadas no entorno desses espaços. Diante do quadro crescente de casos na cidade, com moradores de comunidades apresentando testes positivos para o COVID 19, as Lonas Culturais Elza Osborne (Campo Grande), Carlos Zéfiro (Anchieta), Gilberto Gil (Realengo) e Hermeto Pascoal (Bangu) começam nesta semana a articular uma série de ações para atender às populações locais. A principal delas é o recolhimento maciço de alimentos, itens de higiene pessoal e de limpeza. Também estão previstos encontros com empresários da região, redes de supermercados e associações comerciais.

“Há uma urgência na adoção de medidas para o atendimento a essas pessoas. O coronavírus avança e as lonas precisam exercer a sua função social, ainda que o atual secretário de Cultura, Adolpho Konder, não tenha compreendido até o momento a importância desses equipamentos”, diz Ives Macena, gestor da Lona Elza Osborne, em Campo Grande, a primeira das dez lonas inauguradas na cidade.

A crítica de Macena relaciona-se à hostilidade com que o atual secretário vem tratando esses espaços quando comparado ao tratamento dispensado a outros do eixo Centro-Zona Sul como o Museu de Arte do Rio (MAR). As lonas culturais estão com três meses de atraso no repasse de verbas e algumas apresentam sérios problemas estruturais já notificados à secretaria, sem qualquer providência até o momento.

Vagner Fernandes, gestor da Lona Cultural Carlos Zéfiro, em Anchieta, destaca a imprescindibilidade do ato de solidariedade mesmo diante do distanciamento e da omissão da Secretaria Municipal de Cultura na resolução imediata de questões que podem ser solucionadas no âmbito interno do próprio órgão.

“As lonas sobrevivem por respiradores artificiais. Há mais de dois anos não há regularidade no repasse dos recursos. Isso desordena o projeto, desmonta equipes e coloca-nos em uma situação de descrédito junto aos profissionais que prestam serviços e às comunidades. Apesar dos problemas, estamos indo em busca do fundamental neste momento, que são as parcerias com instituições privadas a fim de salvarmos vidas. O secretário Konder articulou recentemente com a Secretaria Municipal de Educação uma solução para devolver ao MAR o montante de R$ 4,5 milhões do contrato anual. A justificativa foi a implantação da Escola do Olhar. Com isso, ele preservou o orçamento do museu em R$ 8,5 milhões por ano, dos quais R$ 4 milhões continuam saindo da Secretaria Municipal de Cultura. Isso é quase três vezes mais do que o orçamento anual das dez lonas. Não me parece ser razoável uma negociação dessas, com lonas caindo aos pedaços e sem dinheiro para a manutenção. Ninguém é contra ao repasse de verbas para o MAR, um equipamento incrível e importante para a cidade. Questionamos a partilha dos recursos. Não me parece ser falta de dinheiro, portanto. É uma questão política”, diz Fernandes.

Em meio às adversidades, a Lona Cultural Gilberto Gil abriu as portas para o comediante Rafael Portugal, ex-aluno de teatro do espaço, para duas apresentações beneficentes de recolhimento de alimentos, no início de março, quando as orientações ainda se pautavam pela limitação em 50% da capacidade de lotação das salas. O movimento do ator fez a lona arrecadar mais de uma tonelada de alimentos e cerca de 1.500 garrafas de água mineral, além de produtos de limpeza.

Todos foram devidamente doados para abrigos de menores e de idosos da região.

“Não havia um direcionamento definido por decretos. Isso surgiu depois. O Rafael nos procurou e cedemos a lona. Hoje, isso seria inviável por conta das transmissões comunitárias do coronavírus. O espaço está com as oficinas suspensas, bem como os shows locais e eventos. Mas vamos disponibilizar a estrutura para as ações de combate à pandemia. Lonas não são palcos de entretenimento apenas; são espaços de mobilização social. E por isso a estrutura precisa funcionar em momentos como esse de calamidade pública. É fundamental que a Secretaria Municipal de Cultura olhe para as lonas com o cuidado que o projeto requer. Vivemos uma instabilidade constante nesta relação com poder público municipal. Fica difícil mantermos a organização que gostaríamos em função de uma desordem que não é provocada por nós”, sinaliza Cleonaldo Cavalcante, gestor da Lona Gilberto Gil.

Avessos à politização dos espaços, os gestores das lonas, no entanto, também têm buscado diálogo neste momento com os vereadores da região para fortalecer o coro de vozes que busca parcerias institucionais e apoios privados. É necessária uma união de esforços para coordenar ações de mitigação de uma crise jamais experenciada no Brasil desde o início do processo de abertura democrática. A gestão da Lona Cultural Hermeto Pascoal, em Bangu, crê na sensibilidade do empresariado local e na mobilização da população.

“Bangu tem uma associação comercial muito atuante e poderosa. Vamos abrir um canal de interlocução para traçarmos uma estratégia de ação. O importante é focarmos nas medidas preventivas e de subsistência. Bangu é um dos bairros mais populosos da cidade, repleto de comunidades. Temos de agir agora. Certamente, teríamos uma situação mais favorável se os nossos repasses mensais estivessem em dia. É uma luta antiga essa nossa. Falta sensibilidade para compreender que esses espaços precisam estar funcionando plenamente, porque integra o projeto de maior capilaridade da rede de teatros do município. Estamos em dez regiões da cidade. Não é pouca coisa. Apesar das dificuldades administrativas e financeiras que atravessamos não nos furtaremos em cumprir o papel que nos cabe. Esperamos que a secretaria também cumpra o dela”, enfatiza Sérgio Abrahão, gestor da Lona Cultural Hermeto Pascoal.